Jejum: A Cura da Natureza

O jejum é uma prática milenar comum em diversas culturas e religiões ao redor do mundo. Ele consiste em se abster de alimentos e, em alguns casos, também de líquidos por um determinado período de tempo. Essa prática tem sido estudada cientificamente e tem demonstrado diversos efeitos benéficos para a saúde.

Um estudo realizado por Longo e Mattson (2014) apontou que o jejum intermitente pode melhorar a saúde metabólica, reduzir a inflamação e proteger contra doenças crônicas, incluindo doenças cardiovasculares e câncer. Outro estudo realizado por Patterson e Sears (2017) mostrou que o jejum pode melhorar a saúde do cérebro, reduzindo o risco de doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson.

Ainda, a pesquisa de Cheng e colaboradores (2014) mostrou que o jejum pode melhorar a imunidade e aumentar a resistência a infecções. Os pesquisadores observaram que o jejum aumentou a produção de células-tronco hematopoiéticas, que são responsáveis pela produção de células do sistema imunológico.

Além dos benefícios citados, o jejum tem sido associado à redução dos níveis de inflamação sistêmica no corpo e ao aumento de neuroproteção (Mattson et al., 2018; De Cabo; Mattson, 2019), visto que o jejum intermitente pode reduzir a expressão de marcadores inflamatórios no sangue, como a interleucina-6 e o fator de necrose tumoral-alfa. No âmbito metabólico, a prática destaca-se como uma estratégia eficaz na regulação dos níveis de açúcar no sangue, com estudos demonstrando que o jejum intermitente reduz a resistência à insulina e amplia sua sensibilidade — fatores determinantes tanto na prevenção quanto no tratamento do diabetes tipo 2 (Mattson et al., 2018; De Cabo; Mattson, 2019).

Por fim, o jejum tem sido apontado como uma estratégia para melhorar a função cerebral. Estudos em animais demonstraram que o jejum intermitente pode aumentar a plasticidade sináptica no cérebro, o que pode levar a uma melhora na aprendizagem e na memória (Mattson et al., 2018).

A prática do jejum também tem sido associada à ativação do processo de autofagia, que consiste na degradação de proteínas e organelas danificadas ou não essenciais no interior das células, o que ajuda a manter o equilíbrio celular, reverter o envelhecimento e a prevenir doenças como o câncer (Mizushima et al., 2008).

Autofagia

Autofagia é um processo celular que envolve a reciclagem de componentes celulares desnecessários ou com mau funcionamento, como proteínas e organelas, para fornecer nutrientes e energia para a célula. Esse processo tem sido alvo de muitas pesquisas recentes, pois está relacionado a uma série de processos fisiológicos, incluindo a resposta ao estresse celular, a defesa contra patógenos, a regulação do desenvolvimento e a longevidade (Mizushima et al., 2008).

O processo de autofagia é regulado por um conjunto de genes, conhecido como genes da autofagia, que são ativados em resposta a diversos estímulos, como a falta de nutrientes, o estresse oxidativo e a hipóxia. Entre esses genes, o mais estudado é o gene ATG8, que codifica a proteína LC3 (Microtubule-associated protein 1 light chain 3), que está diretamente envolvida na formação de vesículas autofágicas, conhecidas como autofagossomos (Yorimitsu; Klionsky, 2005).

Além de estar envolvida na formação dos autofagossomos, a autofagia também está relacionada inversamente com a proteína mTOR (Mammalian target of rapamycin). Ou seja, quando esta proteína está ativada, momento em que a célula tem nutrientes suficientes, ela inibe a autofagia. A ativação da autofagia só ocorre quando a célula é privada de nutrientes, resultando em uma redução da atividade de mTOR e uma ativação dos genes da autofagia (Sridharan; Jain; Basu, 2011).

Estudos recentes também mostraram que a autofagia desempenha um papel importante em várias doenças, como o câncer, doenças neurodegenerativas e doenças cardiovasculares. Portanto, a compreensão da autofagia é essencial para o desenvolvimento de novas terapias para essas doenças. (Wang; Klionsky, 2003)

Modalidades de Jejum

Há algumas modalidades de jejum, dentre elas o jejum prolongado e o jejum intermitente. O jejum prolongado é uma prática na qual o indivíduo fica mais de um dia (24 horas) sem comer. Esse período pode se estender a três dias, uma semana, chegando até a 40 dias, em alguns casos mais radicais (não se recomenda este último).

O jejum intermitente, por sua vez, se subdivide em duas configurações. Na primeira, a pessoa se alimenta dentro de uma janela de 8 horas. Por exemplo, ela acorda por volta das 7 horas da manhã e fica até o meio-dia sem comer. Então ela tem uma janela do meio-dia até as 20 horas para se alimentar até ela suspender a alimentação a partir das 20 horas, e só voltar a comer meio-dia do dia seguinte, totalizando um jejum de 16 a 17 horas. Uma outra forma de realizar o jejum intermitente é restringindo o número de refeições, de maneira que as refeições ficam suficientemente espaçadas, criando-se assim um período de jejum. Por exemplo, ao se alimentar meio-dia e às 19:00 horas da noite, há um primeiro jejum grande de 17 horas seguido por um segundo pequeno jejum de 7 horas. 

Em suma, o jejum é uma prática que pode trazer diversos benefícios à saúde, desde a perda de peso até a melhora na regulação dos níveis de açúcar no sangue, na redução dos níveis de inflamação no corpo e na melhora da função cerebral. Não obstante, apesar dos benefícios para a saúde, é importante destacar que o jejum não é recomendado para todas as pessoas e deve ser realizado com acompanhamento médico e de forma adequada, para evitar possíveis riscos à saúde, principalmente para aqueles que sofrem de doenças crônicas ou condições de saúde específicas. Portanto, a decisão de jejuar deve ser tomada individualmente e com a orientação de um profissional de saúde, considerando as condições de saúde de cada pessoa e as possíveis consequências do jejum. É importante lembrar que não há uma abordagem única para o jejum e que é necessário equilibrar os benefícios e riscos com as necessidades e preferências individuais.

Referências:

Cheng, C. W. et al. Prolonged fasting reduces IGF-1/PKA to promote hematopoietic-stem-cell-based regeneration and reverse immunosuppression. Cell stem cell, v. 14, n. 6, p. 810-823, 2014. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4102383/>. Acesso em: 25. abr. 2023.

De Cabo, R.; Mattson, M. P. Effects of Intermittent Fasting on Health, Aging, and DiseaseThe New England journal of medicine, v. 381, n. 26, p. 2541–2551, 2019. https://doi.org/10.1056/NEJMra1905136.

Longo, V. D.; Mattson, M. P. Fasting: molecular mechanisms and clinical applications. Cell metabolism, v. 19, n. 2, p. 181-192, 2014. Disponível em: <https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov
/articles/PMC3946160/>. Acesso em: 15. abr. 2026.

Mattson, M. P. et al. Intermittent metabolic switching, neuroplasticity and brain health. Nature Reviews Neuroscience, v. 19, n. 2, p. 63–80, 2018. DOI: 10.1038/nrn.2017.110. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5913738/>. Acesso em: 25. abr. 2023.

Mizushima, N. et al. Autophagy fights disease through cellular self-digestion. Nature, v. 451, n. 7182, p. 1069-1075, 2008. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2670399/>. Acesso em: 25. abr. 2023.

Patterson, R. E.; Sears, D. D. Metabolic effects of intermittent fasting. Annual review of nutrition, v. 37, p. 371-393, 2017. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28715993/>. Acesso em: 25. abr. 2023.

Sridharan, S.; Jain, K.; Basu, A. Regulation of autophagy by protein kinases. Cancers, v. 3, n. 2, p. 2630-2654, 2011. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3757434/>. Acesso em: 25. abr. 2023.

Wang, C. W.; Klionsky, D. J. The molecular mechanism of autophagyMolecular medicine (Cambridge, Mass.), v. 9, n. 3-4, p. 65-76, 2003. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12865942/>. Acesso em: 25. abr. 2023.

Yorimitsu, T; Klionsky, D. J. Autophagy: molecular machinery for self-eating. Cell Death and Differentiation, v. 12, Suppl. 2, p. 1542-1552, 2005. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1828868/>. Acesso em: 25. abr. 2023.